Opinião: A estrada da vida (Federico Fellini)
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Meu primeiro contato com este filme foi através da música, intitulada “la strada” de Nino Rota, que colaborou em vários outros filmes de Fellini. Em comemoração aos 100 anos do cinema em 1995, muitas revistas e jornais lançaram muitos filmes e CDs (que eram coletâneas de diversos tipos, inclusive algumas divididas por gêneros), obviamente a mídia não poderia deixar de se aproveitar de tal momento histórico, propício para lucros. E num destes CDs, estava a absurdamente magnífica “La strada”. Eu simplesmente fiquei obcecado por essa música, seu início é clássico e é usado em circos até hoje e seu final com trompete é de uma dramaticidade que até hoje nenhuma música para o cinema me mostrou ( tá, estou exagerando, tiveram muitas outras belas obras no cinema). Antes mesmo de ver o filme, já imaginava que este seria do mesmo nível de sua trilha. Naquela época eu não tinha acesso a vídeo e nem poderia saber se pela NET haveria a possibilidade de se conseguir baixar filmes, mas independente disso não tinha CPU. Minha única forma de assistir filmes era através do velho e tradicional cinema, recurso que é o meu preferido até hoje. E enfim, tive a oportunidade de assistir “a estrada da vida” no cinema. Tinha uns 15 anos e foi numa mostra que não me recordo qual,as legendas eram em espanhol, mas isso não me impediu de querer assistir o filme. Além de poder ver a magistral competência de Fellini em usar a música que eu tanto gostava, pude pela 1° vez constatar o que é de fato uma excelente atuação cinematográfica. Pra uma pessoa que não estuda cinema, um dos métodos de se aprender um pouco sobre a técnica cinematográfica é simplesmente assistindo muitos filmes. Chegará uma hora em que se terá uma base para comparação, que permitirá saber quando algo é ou não clichê, quando a fotografia é apropriada ou mera estilização barata e por aí vai. E assistindo esse filme, depois de ter assistido muitos outros, pela 1° vez tive o impacto de uma atuação num filme, e esta foi a de Anthony Queen interpretando o carrancudo Zampanò. Poderia destacar várias cenas, mas os minutos finais são com certeza um dos pináculos de uma atuação no cinema. “A estrada da vida” está incluído no movimento cinematográfico intitulado neo-realismo(apesar de fellini já demonstrar alguns de seus traços característicos neste filme, que de certa forma destoam dos outros filmes filmes neo-realistas), filmes que tentam mostrar a verdadeira Itália do pós-guerra, em contrapartida aos filmes românticos que em nada representava a situação econômica, social e política da Itália naquela época. Recheado de quadros de triste beleza, o filme conta com uma história simples: Gelsomina (interpretada por Giuletta Masina, mulher de Fellini) é trocada por comida por seus pais a Zampanò, que é um artista andarilho mambembe. Sua apresentação se baseia em destruir correntes com o corpo. A alusão é clara e se justifica ao longo do filme, Zampanò é um homem duro, frio, solitário e que não dá o devido valor a Gelsomina, que nutre um inocente amor por ele. Ao longo do filme, Zampanò percebe seu amor por ela, mas num momento tardio, já que ele havia se livrado dela. O filme também pode ser enquadrado na categoria road-movie, durante toda a trajetória dos protagonistas novos personagens e cenários entram e desaparecem da trama, com o intuito de provocar modificações na consciência dos personagens, como claramente é o convento e o circo. Por sinal, o circo e/ou elementos circenses são constantes nas obras de Fellini, gerando um clima lírico e poético, por isso muitos argumentam que apesar deste ser um filme longe de ser um filme Felliniano em si, contém uma série de indícios do que iriam vir a ser os filmes posteriores dele. Apesar dos filmes anteriores a “A estrada da vida” também conterem esses indícios, esse processo iria se tornar mais evidente em “Noites de Cabíria”. Algumas cenas antológicas: Gelsomina, no carro, se despedindo da família; Zampanò ensinando ela a tocar instrumentos, como o tambor e o trompete (foto); as apresentações da dupla ao público e o final na praia. Definitivamente um filme inesquecível.
Comments
Por sorte, consegui reassitir o filme na
sessão cineclube do Odeon. E Foram
necessárias fazer pequenas modificações no
texto acima. Além disso são necessárias fazer
mais algumas jogadas considerações
importantes sobre este filme:
Reafirmando o que já havia afirmado,
Anthony Quinn está perfeito.Mesmo em pequenos
momentos, seja de forma sutil ou grosseira,
ele consegue demonstrar sua frieza com
relação as pessoas, a gelsomina e a si.
Carrancudo, orgulhoso, brigão, todas as
características de um verdadeiro brutamontes
estão presentes e de forma incrivelmente
natural. O momento em que Zampanò abandona
Gelsomina é antológica. Mas o desfecho é sem
dúvida o grande momento. No bar, bêbado e
arrependido, seguindo em direção a praia, que
é um importante símbolo do filme, Zampanò cai
em prantos, demontrando haver ali também
sentimentos. Poderia ser piegas, mas Quinn
está tão magnífico que isso passa de forma
desapercebida.
A inocência de Gelsomina,que diminui de
forma sutilmente gradativa ao longo do filme,
é aprofundada descaradamente com a referência
a Carlitos, personagem de Charles Chaplin, o
motivo creio é óbvio. Além disso, crianças
muitas vezes estão presentes em quadro, seja
interagindo diretamente ou indiretamente com
a personagem intensificam isso, sua
inôcencia, . Gelsomina, que como ela mesmo
diz "não serve pra nada, nem pra
ninguém" é no fundo uma criança que irá
percorrer as estradas da Itália e descobrir
as pessoas, as idéias e irá de certa forma
entender sua paixão e perceber seu real
"caminho". E Gelsomina passa a
aprender um pouco sobre a vida, deixando sua
exagerada pureza inicial.
Cenas(algumas já forma citadas no texto
acima) que me lembram muito o posterior
Fellini são os momentos do casamento. Aquela
imensa mesa, com os italianos falando pelos
cotovelos e tacando coisas pra lá e pra cá me
remetem demais a Amarcord, outra grande obra
de Fellini. Além disso, o filme contém muitos
momentos engraçados, humor a seu estilo,
coisa que não há em outros habituais filmes
neo-realistas como Ladrões de bicicleta e
Roma, cidade aberta. Isso distancia "A
estrada da vida" dos outros filmes
dentro desse movimento, e o aproximam um
pouco mais das futuras obras de Fellini,
ponto já discutido. Outro ponto que também se
relaciona a esse é o próprio fato de "A
estrada da vida" ser mais uma história
de amor do que um retrato social da Itália do
pós-guerra.
Mais um comentário, Nino Rota = Deus (rs)
Posted 22 months ago.
( permalink
)
Nino Rota e Ennio Morricone são os melhores.
Nino Rota é mais regular, mas as trilhas do
Ennio são de fuder também.
Posted 17 months ago.
( permalink
)
Volei pra dizer que concordo em gênero,
número e grau: este filme é uma das obras
primas do cinema e esta trilha do Nino Rota
uma das músicas mais tocantes de minha vida.
Posted 17 months ago.
( permalink
)
A cena final na praia é realmente
fantástica... já faz anos que eu assisti o
filme mas nunca esqueço a emoção que o
Anthony Quinn conseguiu passar... confesso
que fiquei vários dias com o coração apertado
ao lembrar do filme, e ainda fico qdo penso
nele...
Não sou especialista em trilha sonoras de
filmes, mas sou fanzaço do Ennio Morricone...
ele é maravilhoso...
Posted 6 months ago.
( permalink
)
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